Estava sendo uma segunda-feira desconfortável, como se meu corpo ainda estivesse elaborando tudo que estava acontecendo. Uma parte minha confiante, outra em cima do muro e uma terceira com medo da minha inocência. Havia uma inquietação por ter exposto minha opinião e por ter sido criticada. Como se passasse pelas minhas veias um arrependimento pra não ter que sentir o incômodo de não ser aceito que invadia a boca do meu estômago.

Mas também senti um alívio por poder soltar palavras que vivem em mim, ainda que nem eu saiba se confio tanto nelas assim. Nesse dia me perguntaram como lidar com o medo que invadia e eu me senti culpada por não estar sentindo aquele mesmo medo. Culpada por me sentir bem.

 

Sai para dar uma corrida, me prometi que essa semana eu começaria 20 minutos todo dia, com ou sem dor, com ou sem tempo, com ou sem vontade. Às vezes preciso me fazer general. Nesse caso até tinha uma pitada de vontade, uma esperança que eu iria voltar mais animada ou pelo menos, menos encasquetada com minhas questões.

Fui com uma playlist estratégica e de cara a primeira música me levou pro mundo paralelo, corri cantando e dançando como se estivesse tudo resolvido. O dia estava nublado, o clima estava perfeito e as ondas do mar estavam furiosas. Eu as vi quebrando, se misturando, aquele tubo se formando e aquele sopro de encerramento encantando.

Passei por um senhor todo arrumadinho, ele parecia pensativo e sei lá porque eu gostei de ver. Me deu vontade de ser um dia uma senhora arrumadinha. Mais alguns metros eu percebi o rapaz do quiosque se abaixando para dar carinho num Bulldog Francês, na mesa ao lado três homens jogavam baralho, e no caixa um cliente estava fazendo o vendedor soltar uma gargalhada.

Como tem gente correndo na orla, será que pra maioria é um daqueles dias que só acontece uma vez no ano? Será que elas também estão planejando vir toda a semana? Ou será que isso já é uma rotina? Vi um casal de gringo tirando foto com o morro dois irmãos e me lembrei como é louco estar num lugar pela primeira vez e ter a chance de não saber nada. Não conhecer tem um quê de liberdade, tu não acha nada, não tem opinião, tu só vai e vive. Sabe?

Passei por uma senhora com olhos azuis piscina, que ideia boa. Os olhos já são um negócio incrível né… se observar de pertinho é uma mandala em movimento que permite o encantamento com o mundo. Uns dizem que é o portal da alma. E tem também o fato deles carregarem as lágrimas, aquela explosão de emoção salgadinha, que eu acho uma delícia. Se não bastasse tudo isso eles vêm na versão azul piscina.

Estava quase chegando em casa e esbarro em um amigo. Nós gritamos e fizemos uma festa, até combinamos um jantar. Me senti numa cidade de interior, observando minha comunidade e encontrando meus vizinhos.

Fui comprar um bolo, escolhi três e a conta foi de R$54, eu só tinha R$50. A moça disse que tudo bem, que um dia desses eu pago.

Cheguei em casa, fiz um café e comi uma cuca de banana com gosto de saúde.

Eu posso ser feliz.

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